As cidades do interior sempre foram consideradas o porto seguro para quem desejava uma tranqüilidade maior e uma paz espiritual não encontrada nas ditas cidades grandes. Isso porque esse tipo de cidade transmitia uma nostalgia poética dos tempos remotos onde as pessoas não se preocupavam muito com tudo o que as rodeavam, somente com a sobrevivência. Não tinham TV para assistir, preocupações com contas a pagar, e nem muito menos o medo de sair de casa e ser atingido por uma “bala” totalmente achada.

Lembro como se fosse hoje, as crianças pulando e brincando na porta de suas casas, felizes e despreocupadas com o que viria pela manhã. Os adultos sentados à beira das calçadas falando da vida alheia, de forma normal e piegas. Lembro-me das brincadeiras de pique-esconde, pique-bandeira, adedanha, vivo-morto, enfim, de tudo que rodeava a vidinha pacata e bela dos habitantes do interior.
A concepção de vida está tão baixa que hoje os interioranos não têm mais essa tranqüilidade nostálgica. As coisas tomaram tal rumo, em que na atualidade devemos mesmo, ter medo até da nossa própria sombra. E isso não é simplesmente uma hipérbole, não!
Viver tornou-se um ato de coragem, sorte e muita… mas muita… fé. Hoje não temos mais a oportunidade de viver no sentido pleno da palavra. Vivemos sim, rodeados de medos e angústias que tomam conta de toda a nossa vida social e familiar. Não existe mais respeito a vida, não existe mais respeito aos seres humanos, não se respeitam mais a existência divina. Estamos cercados por um universo de “homens” que lutam pela sobrevivência, custe o que custar, até que um tiroteio os elimine. Vivemos num verdadeiro “paredão” o tempo todo, e quem irá decidir o final? Com certeza não seremos nós, pois os lideres da existência são os que têm o poder nas mãos de destruir sem pensar a vida alheia.
Vemos todos os dias diversos casos de violência e atentados a vida humana, que passam despercebidos por nossos olhos que só enxergam o que está relativamente ligado ao nosso seio genético. Vemos diversos protestos pedindo paz e o fim da impunidade, aumento da maioridade penal, pena de morte para crimes bárbaros, enfim, tudo em prol de resolver-se os males sociais relacionados a violência. Pensamos em todos os envolvidos nesse processo de sofrimento e da perda de um parente querido. Não fomos preparados para perder, em todos os sentidos, seja no futebol, seja na fórmula 1, seja no carnaval, seja na vida. Fomos condicionados a ganhar sempre!
Proponho uma reflexão também, acerca do sentimento dos familiares dos acusados envolvidos nesses crimes bárbaros, que também são seres humanos e que muitas das vezes não têm nada a ver com os rumos tomados por esses indelinqüentes. Esses também sofrem, tanto quanto os parentes da vítima desses atentados. Eles também perdem, é uma perda diferente, mas perdem! Perdem o sonho de ver seu filho subindo os degraus da vida, perdem a esperança de ver seu sonho realizado ao ter um filho realmente compromissado com a família, perdem a oportunidade de lutar e dar ao seu filho tudo que nunca tiveram e perdem acima de tudo, toda sua existência em prol da educação desse indivíduo.
Quando Deus nos desenhou ele estava confirmando que seríamos intrigantes. Os seres humanos seriam a espécie mais questionativa deste mundo. Seríamos nós que contaríamos a nossa história, não como meros expectadores, mas como atores principais e coadjuvantes deste espetáculo que é a vida.
Ligo a TV e vejo o sequestro por amor de um jovem por uma garota. Amor? Que amor é este, que promove o terrorismo e amedronta a amada? Perdeu-se no tempo o significado essencial da palavra amar. Hoje as pessoas se conhecem numa noite festiva e já amam como se conhecessem-se há anos atrás.