Mês de novembro iniciando e o cheirinho de renovação começa a aproximar-se de nós, simples seres terrestres, esperançosos por mudanças. Este é o mês mais comemorativo existente durante qualquer ano. Temos dia para todos os gostos. Dia de Todos os Santos, Dia de Finados, Dia do Cabeleireiro, Dia do Inventor (Itaperuna tem pessoas mestras em inventar), Dia da Ciência e Cultura, Dia do Cinema Brasileiro, Dia do Radialista, Proclamação da República, Dia da Bandeira, Dia Nacional do Doador de Sangue, ufa! Quantos! Mais iremos dissertar um pouco sobre um dia que nos remete a muitas reflexões, o Dia Nacional da Consciência Negra. Indiscutivelmente a instituição da data tem sua importância, pois serve como um momento de conscientização sobre a relevância da cultura e do povo africano na formação da identidade brasileira; ao menos deveria excitar esse sentimento. Os africanos colaboraram muito, com nossa história, seja nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos deste país, culturalmente racista, ironia não?

A luta do povo negro sempre foi voltada para resistirem a opressão e as injustiças advindas da escravidão, devido a uma valorização exacerbada dos personagens históricos de cor branca, como se a história social do país tivesse sido construída somente pelos europeus e seus descendentes (que tolice).

Algumas pessoas podem considerar desnecessária a promulgação de uma data, no entanto, deve-se analisar que a diversidade de formas de celebração do dia 20 de novembro permite uma dimensão do que propicia esta data, ao congregar os mais diferentes grupos sociais, num só foco, o da valorização do Ser humano independente de raça.

É muito importante à consideração do Dia Nacional da Consciência Negra como o dia nacional de todos os brasileiros e brasileiras que lutam por uma sociedade de fato democrática e igualitária no que diz respeito aos direitos civis, proporcionando a todos a contemplação do respeito à diversidade genuinamente engendrada no nosso processo histórico.

No entanto, mais do que comemorar o dia, se faz necessário refletir sobre as questões que giram em torno do mesmo. Sabe-se que a discussão sobre as questões raciais vem há muito tempo se destacando devido à implantação de leis que visam uma reflexão sob o ponto de vista do multiculturalismo e o acesso de negros nas universidades e agora a PLL 122/2006. Atualmente existem diversos documentos e leis que promovem discussões referentes à classe negra e seu papel no desenvolvimento social e cultural de uma sociedade, tentando-se amenizar a questão da discriminação racial no país, contudo é necessário mais do que leis para promover uma conscientização praticável. É preciso implantar programas, de tudo que se diz e se analisa como correto, relativo à questão do negro na sociedade. Não podemos continuar com essa farsa de que somos um povo libertador e desenvolvido, sem preconceitos e sem discriminação, sem nos preocuparmos com uma educação realmente voltada para todas essas questões.

Vivemos a tanto tempo tentando convencer-nos de que somos um povo sem discriminação, preconceito e mais do que isso, um povo anti-racista. Falamos o tempo todo que é uma falta de vergonha o nosso país, sendo o país multirracial que é, rejeitar as pessoas por sua condição social, política e de raça. Somos o povo que briga todos os dias para tornarmos iguais ou pelo menos com desigualdades menores, e por fim estabelecemos cotas para negros terem acesso às universidades. Por quê? Não serão eles, seres humanos iguais aos brancos?

Digo isso não como forma de discriminação, pelo contrário, é que não entendo o porquê dessa idéia de menosprezar os negros e ‘pardos’ dizendo escamoteadamente que eles são seres incompetentes o suficiente para conseguirem lugar ao sol.

É imprescindível que todos tenham as mesmas condições de ensino, sem precisar-se de cotas especiais. Acredito na capacidade e incapacidade de todos, sem distinção. Na verdade não será uma lei que estabelece cotas para pessoas de raças diferentes da elite ocidental que irá diminuir a discriminação contra todos. É inegável que o ser humano é um formador de preconceitos. Até hoje, infelizmente, para muitos a figura do cidadão negro está relacionada à violência, a injustiça e a marginalidade. Contamos, para fortalecer isto, com uma mídia massificadora e discriminativa que tem uma influência inegável sobre os indivíduos, pois todos nós fomos condicionados a aceitar tudo que nos é informado, como verdade única, sem analisarmos e discutirmos o porquê das coisas. Alguns podem estar achando que tudo isso já dito anteriormente é uma utopia que não tem nada a ver com a nossa realidade. Pois bem, será realmente utopia se não pararmos da falar, falar, falar… e começarmos a agir. É imprescindível que comecemos a praticar todas as palavras bonitas que dizemos ou escrevemos. Será hipocrisia falarmos de uma sociedade mais justa, sem discriminação e preconceito agindo como sempre agimos e como se nada estivesse acontecendo.

Grandes negros fizeram parte da construção da linha histórica do Brasil. Seja promovendo evolução, seja contribuindo com a cultura, seja na inspiração com a sua forma de subsistência.

O país ainda está muito atrelado ao que se chama de vulgarização da cultura negra, no sentido de colocar a margem da sociedade qualquer manifestação cultural que seja relevante a comunidade.

Enfim, é preciso sim, trabalhar com as diversidades nas escolas promovendo uma maior reflexão sobre o multiculturalismo e as desigualdades raciais. O desenvolvimento de projetos interdisciplinares envolvendo o tema é fundamental para a construção de um aluno-cidadão mais consciente e menos discriminativo.