Trabalho desenvolvido no Curso de Letras das Faculdades Integradas Padre Humberto, em Itaperuna/RJ sobre a obra magistral de Aluisio de Azevedo.

Equipe Responsável: Alexsandro Rosa Soares, Damares Nunes Santiago Silva, Eliana Batista Motta Freitas, Francilaine Gomes Nascimento, Leonardo Paixão Cevidanes, Otavio Baptista Caldeira Filho, Sinara Machado de Souza e Tatyane Soares Gama Abreu.


1 INTERTEXTUALIZANDO A OBRA

O objetivo maior desse trabalho é fazer uma análise do papel da mulher, tomando como base a personagem Rita Baiana, na obra de Aluísio de Azevedo. Para que possamos propor essa reflexão, devemos anteriormente explanar um pouco sobre a estrutura histórica da obra fazendo um quadro comparativo com a literatura atual.

O romance narra a vida miserável dos moradores e de duas habitações coletivas. Usou de temas como os conflitos humanos, visto à luz dos princípios do Naturalismo, que tinha como ideologia que o ser humano é produto do meio, da educação.

Um dos maiores valores que vemos retratados na obra de Aluísio de Azevedo é a sua facilidade em fazer uma análise de tipos sociais, só que esses tipos só se manifestam como uma “conseqüência” do meio, pois o grande personagem na verdade é o conjunto, ou seja, o cortiço. Outro ponto que é bastante destacado na obra é o sexo e a sensualidade, várias cenas são descritas em cima desse tema, e essas descrições são feitas de modo bem detalhista e realista, tomando para isso, termos científicos, biológicos.

Na obra encontramos algumas características relevantes do Realismo como a crítica ao capitalismo selvagem, quando de um lado João Romão aspira a riqueza e Miranda, já rico, aspira à nobreza. Do outro, a “gentalha”, caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome. Percebe-se também a redução das criaturas ao nível animal (zoomorfização) que é uma característica do Naturalismo.

Promovendo um intertextualidade da obra com a literatura atual podemos explanar um quadro comparativo com a obra de Fernando Meirelles, Cidade de Deus. Ambos abordam temas sobre a violência urbana, o domínio. O chocante filme de Meirelles, nada mais é que o processo evolutivo já denunciado por Azevedo. Cobiça, inveja, ira e luxúria são temas de ambas as obras e pelos quais personagens intensos são capazes de tudo, inclusive matar.

Finalizando, podemos perceber que Aluísio de fato não escrevia, mas sim pintava a sociedade da época, que na verdade, não foge muito da nossa atual, com pessoas querendo mais e mais poder e dinheiro, pensando em si sós, enquanto milhões de pessoas vivem marginalizadas em favelas e nas ruas.


2 O PAPEL DA MULHER

Pontuamos um outro aspecto importante na obra que é a redução da mulher à um simples objeto, “escrava” ao realizar os afazeres domésticos e trabalhistas ou em objeto sexual, pronta a todo momento à satisfazer as necessidades dos homens.

Três tipos diferentes de mulher encontramos aqui descritos nessas relações:

a) a mulher-objeto que é trocada como nas sociedades primitivas (Bertoloza e Piedade);

b) a mulher sujeito-objeto que aceita as regras do sistema dando tanto quanto recebe (Rita Baiana).;

c) a mulher-sujeito que regula os regimes de troca capaz de impor condições e manobrar o macho em benefício próprio (Leonie e Pombinha).


2.1 RITA BAIANA: in foco

Observe esta, descrição de Rita Baiana, e do fascínio que exercia sobre o português Jerônimo:

“Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; e/a era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbam em tomo da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.”

É o símbolo da brasilidade quente que encanta Jerônimo, o português enamorado. Caído pela mulata, ele abandona mulher e filha, abraça a vida boêmia, contrai dívidas, perde a força moral e chega a ponto de matar um homem com um pedaço de pau. Ele a venera, satisfaz todos os caprichos, arde e morre por ela, se preciso for. Passa por todos os dissabores e tormentas, mas não lhe tirem a Rita, que sem ela não pode mais viver.

Rita Baiana é a personificação do melhor e do pior da mulher, mas não é uma mulher comum, e sim uma dotada do orgulho e da beleza da raça negra da qual descende, aliada à ferocidade da mulher pobre que defende seu espaço e seu sustento. Ela transborda alegria e sensualidade, é corajosa, digna, guerreira. Mas o mais marcante nessa mulher, assim como em toda a obra de Aluízio Azevedo, é que Rita Baiana é humana. Passa longe de qualquer heroína convencional da literatura brasileira, sempre tão cheia de Helenas (Machado de Assis) e Marílias (aquela de Dirceu), tão brancas, castas, atormentadas, frágeis, suspirantes.

Ela ri e se comove com o mesmo que todos nós. Tem seus momentos de egoísmo, de fúria, de mesquinharia, para logo em seguida abrir-se toda em generosidade ímpar. É amiga, companheira, carinhosa, brincalhona, devassa, inebriante. Mulher, personagem e símbolo inesquecíveis. Forte, apaixonada e politicamente incorreta, é absolutamente impossível não adorá-la. Sedutora e consciente de seus encantos é maliciosa e faminta de vida, um diabo de saias.

É sem dúvidas, a alma de O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, embora não seja a protagonista.

Feche os olhos e imagine um amplo pátio calçado de pedras em noite de lua cheia. Imagine um grande número de pessoas reunidas em ambiente de alegria festiva. Violão e cavaquinho enchem o ar com acordes vibrantes de música crioula, alguns ensaiam tímidos passos de dança. Então imagine uma mulher. Ela salta para o centro da roda do samba, atraindo todos os olhares com o movimento lasso dos quadris. Tem longos cabelos escuros e curvas generosas. Exala vitalidade e graça irresistíveis, dança como um animal furioso. Uma mestiça. Uma mulata cor de canela e pecado, de sorriso largo desconcertante, cheirando a cio com eflúvios de cumaru. Um feitiço feminino, sinuoso feito serpente, prometendo o paraíso. Requebrando frenética, ela hipnotiza os expectadores e os incitam aos delírios de gozo quase carnal, arrancando aplausos e gritos rubros, como se brotados do sangue. Sob as palmas cadenciadas, ela vai acelerando, acelerando, prestes a explodir. É capaz de atear fogo às veias dos homens e roubar-lhes a alma pelos olhos. Pode revolucionar o viver e o sentir apenas com um meneio do ventre liso e dourado. É capaz de destruir uma família e recompensar com a loucura. Um demônio, um veneno, que penetra por todos os buracos do corpo, que faz lânguido o mais diligente dos homens, que transforma o mais manso em assassino. Imaginou? Essa, meu amigo, é a Rita Baiana.

Uma mulher a frente de seu tempo, participa de triângulos sexuais com Firmo e Jerônimo. Para a infelicidade de sua mulher, Jerônimo viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar.



“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, tirilando (80)”.


Buscamos através da literatura e da música promover uma intertextualidade. A música escolhida foi Posso até me apaixonar* de Dudu Nobre, interpretada por Zeca Pagodinho.

*Posso Até Me Apaixonar

Zeca Pagodinho

Composição: Dudu Nobre

Gosto que me enrosco num rabo de saia

Quero carinho quero cafuné

Esse teu decote me tira o sossego

Vem me dar um chamego se você quiser

O seu remelexo é um caso sério

Esconde um mistério que eu vou desvendar

Mas você pitelzinho faz logo um charminho pra me maltratar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Fingindo inocente

Toda saliente

Vem me olhando diferente

Chego a estremecer

Meu deus que avião

Chamando minha atenção

Balança meu coração

E quer me enlouquecer

Machuca esse seu nego

Eu não vou pedir arrego

Não vou fraquejar

Você fazendo jogo duro

Só penso no teu sussuro

Dentro de um quarto escuro

Querendo me amar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Pedaço de mau caminho

Esse seu umbiguinho

Me deixa em desalinho

Juro que não ligo

Já é do metiê

Por uma saia de crochê

Ou um belo bustiê

Só pra acabar comigo

Senhor como é que pode

Essa mina no pagode

Chega pra abalar

Corpo queimado de praia

Blusa tomará que caia

Noite inteira na gandaia

Ela só quer sambar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Gosto que me enrosco num rabo de saia

Quero carinho quero cafuné

Esse teu decote me tira o sossego

Vem me dar um chamego se você quiser

O seu remelexo é um caso sério

Esconde um mistério que eu vou desvendar

Mas você pitelzinho faz logo um charminho pra me maltratar

Fingindo inocente

Toda saliente

Vem me olhando diferente

Chego a estremecer

Meu deus que avião

Chamando minha atenção

Balança meu coração

E quer me enlouquecer

Machuca esse seu nego

Eu não vou pedir arrego

Não vou fraquejar

Você fazendo jogo duro

Só penso no teu sussuro

Dentro de um quarto escuro

Querendo me amar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Pedaço de mau caminho

Esse seu umbiguinho

Me deixa em desalinho

Juro que não ligo

Já é do metiê

Por uma saia de crochê

Ou um belo bustiê

Só pra acabar comigo

Senhor como é que pode

Essa mina no pagode

Chega pra abalar

Corpo queimado de praia

Blusa tomará que caia

Noite inteira na gandaia

Ela só quer sambar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Faz assim que eu posso até me apaixonar