“Se o objetivo das aulas de língua portuguesa é oportunizar o domínio do dialeto padrão, devemos acrescentar outra questão: a dicotomia entre ensino da língua/ensino da metalinguagem. A opção de um ensino da língua considerando as relações humanas que ela perpassa (concebendo a linguagem como lugar de um processo de interação), a partir da perspectiva de que na escola se poder oportunizar o domínio de mais de outra forma de expressão, exige que reconsideremos ‘o que’ vamos ensinar, já que tal opção representa parte da resposta do ‘para que’ ensinamos” (Geraldi, 1997:45).

Através deste artigo proponho reflexões a partir da postura prática dos professores de Língua Portuguesa que atuam no Ensino Fundamental e Médio, ministrando aulas e disseminando o conhecimento. Verifico a necessidade de reconstruir as formas de se trabalhar a gramática na sala de aula, transpondo-a de um trabalho mecânico e teórico, para um processo de reflexão que leve à melhor compreensão dos fatos lingüísticos encontrados nos textos, que tenham a ver com a realidade lingüística de cada aluno e que permitam ao aluno uma desenvoltura maior na oralidade e na escrita.

O ato de ensinar Português na escola está ainda, atrelado ao ensino fundamentalmente gramatical de uma língua materna. Embora os educadores tentem trabalhar diversos saberes, provocando uma interdisciplinaridade, a prioridade ainda é o ensino da gramática tradicionalista normativa, o que provoca uma apatia em relação a disciplina.

Há uma indagação gritante diante dos principiantes no estudo da língua, sobre a seguinte questão: em que se baseiam os gramáticos para publicarem suas gramáticas ou guias de estudo gramatical? É fato que esses estudiosos menosprezam as variações lingüísticas e adotam apenas uma variação lingüística que é a denominada norma culta ou padrão, excluindo as outras formas de comunicação. Mesmo afirmando em suas gramáticas que o objetivo de sua obra é o de valorizar as variações existentes, os autores priorizam a padronização e a normatização.

Essa atitude de supervalorizar o ensino de língua tradicional interfere diretamente na aplicabilidade do estudo, porque toda e qualquer variação é vista como errônea, e aquele que fala diferentemente fala errado.

Já está mais que provado através de pesquisas lingüísticas que o falante aprende a língua no próprio uso, construindo um conjunto de regras, que constituíra a sua gramática interna, criando assim, um caminho inverso, que desconsidera essa forma, pela qual o falante adquire sua competência lingüística, partindo das regras para o uso.

Muitas vezes os textos têm servido como pretexto para os professores continuarem trabalhando a gramática, e de forma assistemática, sem dar aos alunos um embasamento teórico que os leve a refletir sobre os recursos lingüísticos, estilísticos e semânticos para a estruturação de bons textos.

Outro aspecto importante da pesquisa está relacionado ao fato de que alguns professores, ao tentarem sair do uso do livro didático, usando quase que somente os textos dos alunos para a discussão dos conhecimentos lingüísticos, não conseguem apresentar uma base teórica suficiente para discutir com objetividade e clareza os aspectos lingüísticos que aparecem nos textos. Isso faz com que o aluno não apreenda o conhecimento, e ainda fique mais confuso em relação a determinados conteúdos.

Conforme nos sublinha Bagno (1999, p. 67) em seu livro Preconceito Lingüístico, o quê e como: Um dos fundamentos da boa ciência é investigar as regras e leis que provocam os fenômenos naturais, que fazem as coisas acontecerem. Só que no ensino da gramática, em vez de investigarmos as regras e as leis, nós simplesmente as entregamos prontas e acabadas para os alunos, que são obrigados a decorá-las, sem terem percebido de modo mais palpável por que as coisas funcionam daquele jeito.

Estamos vivendo há muito tempo a era educacional em que o professor deve estar em contato permanente com as questões atuais relacionadas à sua ação e também ao processo de ensino-aprendizagem. Isso lhe é dificultado pelas condições de vida e trabalho, pois a maioria dos educadores contam com pouca valorização econômica e precisam de uma renda muita maior do que lhe é oferecido para o sustento de sua família, o que provoca uma busca incessante por mais e mais.

Mas as questões problemáticas do ensino de Português não residem somente na formação inicial ou continuada, eles vão além. Temos uma gama de professores de Língua Portuguesa totalmente despreparados para suas atribuições, devido a uma formação básica e confusa de termos sem relevância para o seu trabalho enquanto disseminador e aprendiz do conhecimento. Um dos fatores que provocam essa formação precária é a utilização excessiva do ensino da Língua como algo tradicional.

Enfim, não basta formar bons professores de Língua Portuguesa, sem preparo verdadeiro e se os salários e as condições gerais de trabalho inviabilizam qualquer esforço de atualização. Inegavelmente muitos professores ficam no exercício da profissão só até conseguirem algo melhor em termos financeiros, de realização pessoal e profissional.
Português: tradição ou vivência? Unir, é possível?

Referências:
GERALDI, João Wanderley. O ensino e as diferentes instâncias do uso da linguagem. In: Revista em Aberto. Brasilia: INEP 1991. p. 3-12.

por Alexsandro Rosa Soares
alexsandro.soares@gmail.com