por Alex Soares

Nascemos iguais, vivamos iguais, para a única vitória que
interessa, a vitória do amor entre os homens.

Adélia Prado

Tratar de segurança não é uma tarefa fácil, tampouco prazerosa de se fazer. Estamos convivendo com realidades violentas, que até certo tempo atrás, eram inimagináveis. Pais matam filhos, filhos matam pais, pessoas são assaltadas por pequenos objetos e mata-se por apenas um tênis de R$ 25,00 reais.
Aff! Passados vinte e oito anos e ainda me espanto com situações tão corriqueiras. A história desta vez inicia da seguinte forma. Um conhecido meu recebe a ligação desesperadora de sua mãe, aos prantos pedindo socorro em sua residência. Naturalmente, sem pensar em mais nada este conhecido sai às pressas em direção a sua residência. Antes, porém me pediu para ligar para a Policia Militar solicitando que fossem em direção ao local. Foi o que fiz. Liguei e após oito minutos fui atendido por um funcionário público (leia-se policial militar) que ao ouvir-me indagou sobre o que tinha acontecido. Imediatamente informei que não sabia o que acontecera, devido ao nervosismo da vitima que saíra rapidamente. Foi quando ouvi a seguinte fala:
– O senhor então encontre a vitima e pergunte o que aconteceu e depois entre em contato conosco.
Pluft! Morri!
Ora bolas, a que ponto chegamos! Fiquei tão irritado e aflito com a situação que se o ilustre policial estivesse na minha frente teria me decretado voz de prisão por desacato de autoridade. O que mais me revoltou foi o fato de que mesmo ao ter me identificado, informado o nome da Instituição na qual eu trabalho, re-expliquei a situação ocorrida e mesmo assim tive que ouvir novamente a orientação anterior.
Acionei uma amiga para me auxiliar ligando novamente para delegacia de polícia enquanto eu tentava falar com este conhecido.
Por um lado entendo perfeitamente esta atitude tendo em vista o excesso de trote que eles devem receber diariamente. Em contrapartida existe um lado social que deve ser levado em conta. A questão da vida fica deixada de lado por uma questão protocolar totalmente dispensável.
Indiscutivelmente buscamos sempre utopicamente uma paz nas outras pessoas que está na verdade dentro de nós mesmos. Parece filosofia barata? Pode ser. Mas tenha a certeza de que a paz e a violência se constroem pelos seres humanos. As agressões e as guerras são ações humanas e não fazem parte somente da natureza individual, mas também da cultura social, na verdade é uma construção social.
Já diz o ditado: a qualidade sempre superará a quantidade. Vivemos diariamente atitudes de agressão contra nossos direitos sociais e aceitamos estas repressões pacificamente, sem qualquer questionamento. Com certeza, isso acontece devido a desvalorização e a impunidade existente. Mais do que um bando de policiais despreparados no meio das ruas, achando-se o máximo por estar usando uma farda e ser tratado como autoridade, precisamos de uma legislação atuante que puna os culpados, sejam eles quem forem. O fim da impunidade é um passo muito mais importante para diminuir a violência do que colocar mais policiais nas ruas.
Sou considerado por muitas pessoas como um ser humano arrogante e grosseiro, às vezes, na verdade sou um ser humano agressivo, totalmente agressivo. No entanto, sou um agressivo baseado na psicologia freudiana. Segundo Freud a agressividade é uma força vital a cada pessoa, necessária para superar os obstáculos e as limitações próprias do cotidiano.
A história inicial irrita pelo fato de ser uma violação ao nosso direito a segurança. Temos direito a vida, e isso não significa apenas uma garantia de que ninguém vai matar outrem, mais uma garantia de que todas as nossas necessidades fundamentais devem ser respeitadas, para que todos tenham uma vida digna. Lembram do artigo terceiro da Constituição Feral? Toda pessoa tem o direito a vida, a liberdade e a segurança pessoal.
Os direitos humanos surgiram das lutas para acabar com privilégios, conseguiu?
Hoje acontece um movimento denominado de banalização da violência. Ela é tão comum, tão presente no dia-a-dia, que as pessoas não se incomodam mais com ela, pois estão acostumados com esta situação insuportável.
A violência não é uma fatalidade inexorável, mas colocada pelos humanos, portanto, pode ser retirada e trabalhada pelos mesmos humanos que a constituíram, inclusive os policiais, que antes de ser autoridade, é ser humano como todos nós. Se queremos a paz, devemos nos preparar para ela.
Pense nisso!
:: Artigo publicado na edição de agosto da Revista Estilo Off de Itaperuna